15/05/2026

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Como Jim Perdue, Herdeiro do Setor Avícola Americano, Rompeu a Maldição da Terceira Geração

Em um trecho abrigado da Baía de Chesapeake, em frente à sua casa em Berlin, Maryland, o herdeiro da família de frangos mais famosa dos Estados Unidos cultiva mariscos. Anualmente, ele comercializa cerca de mil unidades para quiosques locais de caranguejo.

O restante é consumido pelo clã Perdue. A fazenda de mariscos é o último vestígio de seu sonho de trilhar o próprio caminho na aquicultura, o que o motivou, em 1974, aos 25 anos, a se afastar do próspero negócio avícola da família.

“Não se sabe se você recebe um tapinha nas costas por um bom trabalho ou porque seu nome está na porta”, diz Perdue, hoje com 77 anos, em um galpão na propriedade. A estrutura é decorada com itens históricos da companhia, incluindo os anúncios famosos protagonizados por seu pai, Frank, com o slogan: “É preciso um homem forte para vender um frango macio”.

Frank foi o lendário magnata da avicultura que transformou o incubatório de seu pai (fundado em 1920) em um negócio de US$ 1 bilhão (R$ 5,1 bilhões, segundo a cotação atual), em vendas, na época em que passou o comando para Jim, em 1991. Jim retornara ao setor familiar alguns anos antes, e somente após Frank ameaçar vender a empresa caso ele não voltasse.

“Meu pai não confiava em muita gente”, afirma Perdue, “mas ele confiava em mim”.

Frank, que faleceu em 2005 aos 84 anos, ainda é uma figura central na Perdue Farms. Porém, nos 35 anos desde que Jim assumiu a presidência e o cargo de CEO, foi a terceira geração que impulsionou a empresa familiar para se tornar a quarta maior produtora de frango dos Estados Unidos, com receita de US$ 9,2 bilhões (R$ 46,92 bilhões) em 2025.

Sob sua gestão, a Perdue Farms tornou-se a maior produtora de óleo de soja orgânico do país (mais de 226,8 milhões de quilos anuais) e uma das maiores negociadoras de grãos no geral (mais de US$ 2 bilhões [R$ 10,2 bilhões] em grãos anualmente). Ele também evitou a maldição da terceira geração, estima-se que apenas 10% ou menos das empresas familiares chegam à quarta, e expandiu a companhia em quase dez vezes.

Aaron Kotowski para ForbesJim Perdue, na edição impressa da Forbes US

“A ideia é agregar valor e atualizar”, diz Perdue. “Não precisamos sair e comprar mais frangos agora”. Com base na estratégia iniciada por seu pai, utilizar a integração vertical para focar em produtos premium, a Perdue Farms é hoje a maior produtora de frango orgânico dos Estados Unidos (mais de 30% de participação de mercado) e a maior compradora de grãos orgânicos (aproximadamente 9,07 bilhões de quilos de grãos).

Além das aves, graças à aquisição da Niman Ranch e da Coleman, a Perdue está entre os maiores produtores de carne criada em pasto do país, o programa de carne bovina orgânica regenerativa da Niman, por exemplo, possui gado pastando em 42.492 hectares e planeja atingir 101.171 hectares até 2028.

A Perdue dedicou mais de 14 anos, entre 2002 e 2016, para converter cada uma de suas granjas para o modelo totalmente livre de antibióticos. Concorrentes maiores, como a Tyson, recuaram recentemente em suas promessas de eliminar antibióticos, alegando custos elevados.

No entanto, Perdue afirma que a criação livre de antibióticos não é, na verdade, mais cara. A empresa implementou uma abordagem multifacetada que inclui a redução da densidade do rebanho nas fazendas e a manutenção de locais limpos, bem ventilados e iluminados para os animais.

Aaron Kotowski para ForbesQuando jovem, Jim Perdue abandonou os negócios da família, mas, anos mais tarde, seu pai, Frank, lhe deu um ultimato: voltar para a Perdue ou ele venderia a empresa

Perdue diz que o objetivo é criar um frango mais saboroso. Mas a estratégia também é mais rentável. O frango da Perdue Farms é vendido a preços mais altos que o de outros grandes produtores. A Forbes estima que a margem de lucro EBITDA da companhia supere 15%, em comparação aos 6% da Tyson e 7% da Pilgrim’s Pride (apoiada pela JBS). Essa margem extra auxilia a Perdue a suportar as oscilações e ciclos comuns no setor agrícola.

“Não somos o frango mais barato do mercado”, diz ele de forma direta.

O resultado é uma fortuna familiar substancial, que a Forbes estima em mais de US$ 5 bilhões (R$ 25,5 bilhões). O montante inclui não apenas a participação acionária no negócio (avaliada em US$ 4 bilhões [R$ 20,4 bilhões]), mas também o valor dos dividendos pagos desde 2005. “Isso foi para manter a unidade familiar”, explica Perdue. “Meu pai era tão concentrado na companhia que queria que cada centavo retornasse ao negócio”.

A família ainda detém 100% da empresa, e Perdue a compartilha com suas três irmãs, além de sobrinhos e netos. Atualmente, cerca de 50 membros da família Perdue, incluindo cinco integrantes da quarta geração, ocupam cargos na organização.

“Somos todos administradores temporários deste negócio”, diz Chris Oliviero, 52 anos, da quarta geração, que anteriormente dirigiu a Niman Ranch e hoje é vice-presidente sênior de estratégia comercial e planejamento de negócios da Perdue. “Estamos dispostos a fazer todo o trabalho difícil”.

Embora Jim credite a Frank, que abandonou a faculdade para assumir a firma de um único funcionário de seu pai em 1940, como o verdadeiro visionário, foi ele quem conduziu o negócio familiar por quase quatro décadas de turbulência, desde ciclos de grãos que levaram concorrentes à falência, até a drástica consolidação da indústria, ameaças de gripe aviária e as tarifas de Trump que interromperam as vendas de soja para a China.

Jim Perdue cresceu do outro lado da rua das primeiras casas de frango construídas por seu avô, Arthur. Durante o ensino médio, suas irmãs trabalhavam no escritório enquanto Jim cuidava da manutenção. Ao mesmo tempo, Frank vendia frango Perdue na televisão com seus anúncios onipresentes.

Enquanto estudava biologia na Wake Forest, Jim Perdue conheceu sua futura esposa, Jan. Após a graduação, o jovem casal mudou-se para Maryland para que Perdue ingressasse na firma familiar como orientador de lotes. Contudo, ele detestava ser um executivo herdeiro e pediu demissão após nove meses.

“Foi uma conversa muito triste, mas eu sabia que não suportaria trabalhar lá naquele momento porque não tinha confiança”, recorda. “Fiz isso para entrar em uma carreira totalmente nova”.

Nos nove anos seguintes, Perdue obteve um doutorado em biologia marinha pela Universidade de Washington, em Seattle, e trabalhou com produtores de ostras no Noroeste do Pacífico. Justo quando considerava se tornar professor, Frank deu o ultimato: voltasse para a Perdue ou ele venderia a empresa.

“Você só tem uma chance com um negócio familiar”, ele lembra.

Perdue retornou como estagiário de garantia de qualidade de nível iniciante e progrediu rapidamente por cargos de produção e vendas. Ele assumiu o comando da Perdue Farms em 1991, quando a indústria do frango crescia 5% ao ano.

Ele também teve a tarefa intimidadora de substituir o pai nos comerciais icônicos da marca. Uma pesquisa de mercado determinou que o público aceitaria um herdeiro como o novo porta-voz, desde que ele trabalhasse no negócio. Como explica Perdue: “Eles não podem viver em um iate na Flórida. Devem cuidar dos frangos exatamente como Frank fazia”.

Em seus primeiros cinco anos como CEO, ele dobrou a receita total para mais de US$ 2 bilhões (R$ 10,2 bilhões) e atribui esse marco à capacitação de seus funcionários. Uma das primeiras medidas ao assumir a gestão foi perguntar aos executivos o que queriam fazer em seguida.

Ele descobriu que muitos estavam acomodados, seu pai havia contratado funcionários que eram bons soldados, não bons generais. Cerca de 30% dos gerentes saíram porque, como ele recorda, “antes disso, o plano estratégico estava na cabeça de Frank Perdue”. Aos executivos que permaneceram, ele enfatizou a importância de olhar para o consumidor, uma lição simples que pode ser difícil de lembrar.

“A maioria das pessoas passa a olhar para dentro e a tornar a vida melhor para a empresa, em vez de para o consumidor”, diz Perdue. “Você pensaria que é óbvio. Não é”.

Ouvir os consumidores foi o que impulsionou a Perdue a se tornar totalmente livre de antibióticos, uma estratégia de alimentação saudável que se manteve em outras aquisições. Em 2011, a Perdue adquiriu a Coleman, então a maior produtora de frango orgânico dos Estados Unidos, e quatro anos depois comprou a produtora de carne suína e bovina criada em pasto Niman Ranch.

Cortesia de PerdueJim Perdue com seu pai, Frank, e seu avô, Arthur, que fundou a empresa em 1920. Em 1995, Jim teve a difícil tarefa de substituir seu pai na área de publicidade

“Temos uma reputação, adquirimos alguém e não tentamos transformar em uma operação Perdue”, afirma. “Deixamos que continuem fazendo o que fazem e aprendemos com eles”.

Essa estratégia levou o filho mais velho de Jim, Ryan, que ingressou na empresa em 2010, a focar na próxima geração de marcas. Ele fundou o que hoje é uma das maiores marcas de petiscos premium para animais de estimação dos Estados Unidos, a Full Moon (receita anual estimada em US$ 100 milhões [R$ 510 milhões]), e liderou a aquisição da marca de frango criado em pasto Pasturebird, que saltou de menos de US$ 10 milhões (R$ 51 milhões) em receita anual para estimados US$ 50 milhões (R$ 255 milhões) nos últimos cinco anos.

Ryan, 47 anos, que agora aparece nos comerciais da Perdue com seu irmão Chris, diz que pensa em termos de décadas: “Não sou o tipo de pessoa que faz as coisas por impulso por ser uma tendência passageira. Acredito profundamente no planejamento metódico de mudanças significativas”.

Chris, 42 anos, que supervisiona o marketing e o comércio eletrônico, acrescenta: “Queremos estar alinhados com a próxima geração que está chegando para sermos dignos de sua confiança. Precisamos conquistar isso”.

As gerações futuras terão muito a administrar à medida que a família avança em seu segundo século de negócios. A Perdue trabalha agora com 6.200 produtores de grãos, 1.800 avicultores, 600 criadores de suínos e 85 pecuaristas, todos desejando obter o máximo possível por seus esforços.

Jim Perdue compreende essa dinâmica. Ele sabe como é produzir alimentos e ser pressionado por outra empresa na cadeia de suprimentos. Quando começou a vender seus mariscos para um restaurante e atacadista local, aceitou a oferta de 28 centavos de dólar por unidade sem questionar, até que entrou no restaurante outro dia e pediu 12 mariscos no vapor por US$ 17 (R$ 86,70).

Após fazer as contas de cabeça, Perdue ligou para seu atacadista e disse: “Alguém está ganhando muito dinheiro aqui e não sou eu”. Afinal, ele reconhece uma proposta ruim quando a vê.

*Reportagem publicada originalmente em Forbes.com

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