29/04/2026

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“O Agro Precisa de um Plano de Estado, Não de Governo”, Diz Executivo da John Deere

O Brasil tem uma das agriculturas mais produtivas do mundo, colhe safras recordes e faz exportações gigantescas de commodities como soja, carne e milho. Mesmo assim, falta armazém para guardar o que produz, estrada para escoar, crédito para investir e seguro para cobrir o risco. Para Alfredo Miguel Neto, executivo sênior de Assuntos Corporativos, Comunicações e Cidadania da John Deere no Brasil, que atua localmente desde 1965, esse paradoxo tem uma causa central: o país nunca construiu uma política agrícola de longo prazo.

Em entrevista exclusiva à Forbes Brasil, concedida durante a Agrishow, em Ribeirão Preto (SP), ele foi direto ao que acredita ser um trabalho imediato do setor e que deveria entrar definitivamente em sua pauta. “O agro precisa de um Plano de Estado, não de governo”, afirmou. “Tem que ser um plano de 10, 15, 20 anos para a agricultura brasileira.”

O peso do argumento ganha dimensão quando se olha para os números: o agronegócio fechou 2025 respondendo por 25,13% do PIB, com receita de R$ 3,2 trilhões, o segundo melhor resultado da série histórica, segundo o Cepea/USP em parceria com a CNA. Para Miguel Neto, o número poderia ser muito maior.

Os gargalos que Miguel Neto lista são conhecidos, mas a escala ajuda a dimensionar o problema. No transporte, o caminhão responde por 62% de toda a movimentação de cargas do país, segundo dados do Instituto de Logística e Supply Chain (ILOS). Para o agro, a deficiência é estrutural em duas frentes. Na armazenagem, o Brasil tem capacidade estática equivalente a 70% da própria produção agrícola, enquanto os Estados Unidos possuem estrutura para 140% da sua produção, segundo a Esalq-Log, grupo de pesquisa em logística agroindustrial da Esalq/USP, em levantamento de fevereiro de 2026.

Sem espaço para guardar, o produtor é forçado a escoar no pico da colheita, quando a disputa por caminhões empurra os fretes para cima. No custo de exportação, a distância média entre as fazendas brasileiras e os terminais portuários chega a 625 quilômetros, oito vezes a média americana de 80 quilômetros, conforme o levantamento mais recente disponível da Esalq-Log, apresentado à CNA em 2024. A dependência do modal mais caro fecha o círculo: 90% do transporte de grãos no Brasil é rodoviário. “Noventa por cento do nosso transporte é rodoviário, que é o mais caro que existe”, disse Miguel Neto.

No crédito, o ambiente também é adverso ao produtor e isso impacta toda a cadeia. O Plano Safra 2025/2026 disponibilizou R$ 516,2 bilhões para a agropecuária, mas os resultados mostram retração expressiva nas linhas de investimento: queda de 30% nas concessões nos primeiros nove meses da safra, conforme dados do Ministério da Agricultura. O número de contratos recuou 26% no mesmo período. A própria pasta reconhece que a retração indica “cautela do setor diante das taxas de juros vigentes”. “Hoje não tem crédito disponível a condições atrativas”, disse Miguel Neto. “Os produtores que têm suas reservas conseguem investir. Aquele que não se preparou tem uma condição difícil.”

Para Miguel Neto, esses gargalos não são problemas isolados. São sintomas da mesma ausência: um plano estratégico de longo prazo, construído entre produtores, associações de classe, bancos, universidades e governo, com horizonte suficiente para sobreviver às alternâncias de poder.

“Chega um governo, hoje é um plano. Chega outro, é outro plano”, disse. “Um plano de Estado tem uma direção única.”

A Embrapa é citada como modelo do que uma política pública desse tipo pode produzir. Criada nos anos 1970, a empresa pública de pesquisa agropecuária está na raiz das revoluções que transformaram o campo brasileiro nas últimas cinco décadas. “A Embrapa revolucionou o Brasil. Sim, ela precisa de investimento para trazer novas revoluções com mais frequência, porque o mundo está andando muito rápido. Mas ela é um modelo de política de Estado”, afirmou.

Baseado nessa premissa do longo prazo, o argumento de Miguel Neto vai além da infraestrutura. Para ele, o agro tem potencial para impulsionar a macroeconomia brasileira, desde que o país invista na proporção certa.

“É como um filho que gosta de estudar. O que você faz? Investe em educação para ele crescer”, disse. E lista o que um plano de Estado deveria contemplar: rodovias, portos, navegação nos rios brasileiros, armazéns, irrigação, seguro rural e crédito em condições compatíveis com o risco do setor. Junto com isso, uma comunicação ativa com o exterior sobre como o Brasil produz, não apenas sobre o volume que produz. “O agro gera emprego, gera renda. Se houvesse esse apoio, toda essa massa que está nas áreas urbanas poderia vir para as áreas rurais, gerando novas oportunidades.”

Mercado de Máquinas, Projeção Revisada

O debate sobre política de longo prazo chega a uma indústria que tenta reencontrar o ritmo depois de anos voláteis. A Abimaq projetava crescimento de 3,4% para o setor de máquinas agrícolas em 2026, após alta de 7,4% em 2025. Em março deste ano, a entidade antecipou que o número seria revisado para baixo, com estimativa preliminar de retração de 5%, puxada pela valorização do real, pela queda na rentabilidade do produtor e pela inadimplência de linhas de crédito.

Apenas em janeiro, o setor registrou retração de 15,6% na receita. Para Miguel Neto, a explicação combina fatores que o mercado não previu. “De 2025 para 2026, muita coisa aconteceu que ninguém esperava: as guerras, o impacto no preço das commodities, o crédito restrito, a taxa de juros que não caiu como se esperava.”

No Plano Safra 2025/2026, apenas 36% das vendas de máquinas contaram com juros equalizados, índice muito inferior aos 60% registrados em anos anteriores, segundo dados da Câmara Setorial de Máquinas e Implementos Agrícolas (CSMIA/Abimaq). O crédito caro seleciona quem investe. “Pode ser pequeno, médio ou grande. É aquele que administra bem o próprio negócio, tem sua reserva, um colchão para atravessar a baixa”, disse Miguel Neto. “O mercado agrícola é volátil. Ele tem subidas e descidas.”

Segundo o executivo, onde a empresa tem margem, ela age: o banco da John Deere equaliza taxas de juros para viabilizar o acesso à tecnologia nos períodos de maior pressão. “Nós não somos simplesmente vendedores de máquina. Somos parceiros do produtor”, disse o executivo.

Não por acaso, a relação da John Deere com seus clientes mudou de forma concreta nos últimos anos e, na avaliação da empresa, essa mudança tem sido decisiva para ajudar o produtor a atravessar um ambiente de juros altos, crédito restrito e volatilidade de preços. O modelo antigo, baseado no consultor que o produtor chama, tira a dúvida e vai embora, ficou para trás há muito tempo e vem evoluindo na forma e conteúdo. Miguel Neto afirma que o que existe hoje é diferente: uma presença contínua, sustentada por tecnologia, que acompanha a operação do começo ao fim. Com 300 lojas no Brasil, a empresa acessa, com autorização do cliente, os dados de produção em tempo real. O sistema identifica quando uma máquina vai apresentar falha antes que ela ocorra. “A comunicação vem antecipada. Ligamos para o cliente e dizemos: isso aqui vai dar problema, temos que fazer aquilo”, disse Miguel Neto. “Não esperamos o cliente ligar pedindo apoio.”

Esse modelo tem implicações além da manutenção de máquina e implementos, como ocorria antes. Em reunião com uma seguradora na véspera desta entrevista, Miguel Neto conta que discutia como os dados coletados pela plataforma tornam o produtor mais confiável para o mercado financeiro, reduzindo o risco de crédito. Os dados só são acessados com autorização do cliente. “Os clientes autorizam porque acompanhamos o tempo inteiro”, disse. Na comunicação institucional, a empresa adota o mesmo princípio. “Gostamos de falar com dados. E o Brasil precisa trabalhar com dados para demonstrar o crescimento sustentável do agro. Quem está lá fora e conhece a fonte vai confiar no dado do Brasil.”

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