20/05/2026

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Sanções À Rússia Pressionam o Mercado Global de Fertilizantes e Colocam o Brasil em Alerta

O que é economicamente ruim para a Rússia é ruim para os Estados Unidos, para muitos outros países do mundo e, por extensão, pode acabar piorando a situação da Ucrânia. Continue lendo.

É importante lembrar que a única “economia fechada” é a economia mundial. Quando isso é corretamente compreendido, fica mais fácil entender uma verdade básica: tarifas, sanções econômicas ou qualquer outra medida criada para prejudicar um país invariavelmente acabam prejudicando todos, em uma economia global que, mais uma vez, se comporta como “fechada”.

Como contexto, vale recorrer a um relatório recente escrito por Kip Tom. Tom foi embaixador junto à Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura durante o primeiro governo Trump. O relatório lançado neste mês de fevereiro (no final desta reportagem tem o seu resumo) trata das sanções da União Europeia sobre fertilizantes russos. No dia 6 de fevereiro, o bloco apresentou seu 20º pacote de sanções contra a Rússia.

À primeira vista, elas podem fazer sentido para muitos leitores. Com a Rússia vista como a agressora clara em uma guerra contra a Ucrânia que, até agora, não tem horizonte de término, por que não adotar medidas para impor dor econômica à Rússia como resposta ao que fez e continua fazendo na Ucrânia?

Com um segundo olhar, porém, surgem dúvidas. Primeiro, agricultores em todo o mundo dependem de fertilizantes russos. Isso é um lembrete de algo facilmente esquecido: a guerra econômica é, em certa medida, um luxo de países ricos, povoados por pessoas e produtores capazes de absorver os custos mais altos associados às sanções.

Naturalmente, o que é verdade para países ricos não se aplica da mesma forma aos países pobres. O relatório do embaixador Tom indica que agricultores de países pobres da África sofrerão de forma significativa com os esforços da UE para punir a Rússia, por meio do encarecimento de fertilizantes que desempenham papel crucial na produção global de alimentos.

É importante destacar que as sanções não afetarão negativamente apenas agricultores e consumidores de países mais pobres. Como se vê agora, a questão da acessibilidade de preços também se tornou um tema político em países ricos. Embora grande parte do mundo desse qualquer coisa para ter os “problemas econômicos” dos Estados Unidos, o fato é que o eleitorado americano está irritado neste momento, e frequentemente se argumenta que essa insatisfação está ligada aos preços de bens de consumo que ainda não retornaram aos níveis anteriores à primavera de 2020.

Isso significa que as sanções da UE sobre fertilizantes russos podem ter um impacto econômico prejudicial muito além da Europa, inclusive dentro do país mais rico do mundo. Vale parar e refletir sobre isso, especialmente tendo em mente a saúde e o bem-estar da Ucrânia.

Atualmente, o maior desafio da Ucrânia está relacionado ao acesso a armamentos e aos recursos financeiros necessários para adquirir armas melhores e em maior quantidade, indispensáveis para continuar a guerra contra a Rússia. Sem acesso a recursos militares, simplesmente não há como a Ucrânia seguir lutando.

Isso mostra o perigo de a União Europeia utilizar sanções econômicas contra a Rússia como forma de supostamente fortalecer a posição da Ucrânia. Sanções direcionadas aos produtores russos, por sua própria natureza, serão sentidas muito além das fronteiras desse vasto país. No caso dos EUA, com os consumidores já irritados com o custo de vida, este não é o momento de agravá-lo ainda mais por meio de alimentos mais caros.

Justamente porque agricultores e consumidores pagarão o preço das sanções impostas à Rússia, não é irrazoável supor que custos mais altos tornem as pessoas menos dispostos a apoiar a Ucrânia. Em outras palavras, é sempre a economia, estúpido. E, se a economia dos Estados Unidos sentir os efeitos das sanções da UE contra a Rússia em nome da Ucrânia, não é exagero imaginar que os americanos se tornem menos generosos com o país, em prejuízo existencial da própria Ucrânia.

Para o Brasil, o debate europeu sobre sanções a fertilizantes russos tem impacto direto e mensurável. O país importa cerca de 85% dos fertilizantes que consome, e a Rússia figura de forma recorrente como principal fornecedor individual, especialmente de cloreto de potássio, insumo no qual a produção doméstica brasileira é limitada.

Em anos recentes, as importações brasileiras de fertilizantes de origem russa oscilaram entre US$ 3 bilhões e US$ 4,5 bilhões ao ano (entre R$ 15,8 bilhões e R$ 23,7 bilhões na cotação atual), representando algo entre um quarto e um terço do total comprado pelo país no mercado externo.

Essa dependência tem efeitos diretos sobre o custo de produção agrícola. Fertilizantes respondem por 20% a 40% dos custos variáveis de culturas como soja, milho, café e cana-de-açúcar, conforme a região e o sistema produtivo. Em momentos de choque geopolítico, como ocorreu após o início da guerra entre Rússia e Ucrânia, o encarecimento desses insumos foi rapidamente repassado ao produtor, comprimindo margens e pressionando decisões de plantio.

Em escala macroeconômica, o aumento dos custos no campo se traduz em pressão inflacionária sobre alimentos, perda de competitividade das exportações e maior sensibilidade do agro brasileiro a movimentos externos sobre os quais o país tem pouco controle.

Embora o Brasil venha buscando diversificar fornecedores e avançar em políticas de redução da dependência externa, a substituição da oferta russa no curto prazo é limitada. Outros grandes exportadores globais de fertilizantes, como Canadá, China e Marrocos, também operam com restrições logísticas, políticas comerciais próprias ou capacidade limitada para suprir rapidamente grandes volumes adicionais. É neste contexto que qualquer medida que restrinja ou encareça ainda mais o comércio internacional de fertilizantes tende a atingir de forma desproporcional países importadores líquidos como o Brasil.

O que diz o relatório de Kim Tom

O relatório elaborado por Kip Tom, ex-embaixador dos Estados Unidos junto à FAO, e que também é produtor rural no estado de Indiana, avalia de forma crítica as sanções impostas pela União Europeia aos fertilizantes russos e conclui que a estratégia produz efeitos colaterais significativos sobre a agricultura global, a economia americana e a segurança alimentar em países em desenvolvimento. Segundo o documento, embora as sanções tenham como objetivo enfraquecer o regime do presidente Vladimir Putin, elas se mostraram ineficazes do ponto de vista geopolítico e altamente disruptivas do ponto de vista econômico.

IICA_DivulgKim Tom, ex-embaixador da FAO

A chamada estratégia europeia para fertilizantes é apontada como um fator de desestabilização do mercado global. Entre janeiro e abril de 2022, período imediatamente posterior ao início da guerra, os preços do potássio subiram cerca de 53% e os do fosfato avançaram 35%, pressionando custos agrícolas em todo o mundo. Apesar de a União Europeia ter recuado parcialmente das sanções naquele ano, o bloco voltou a impor restrições aos fertilizantes russos em 2025, reacendendo volatilidade em um mercado já concentrado. O relatório destaca que a própria Europa continua dependente de fertilizantes oriundos da Rússia e da Bielorrússia, o que fragiliza a coerência da política adotada.

Nos Estados Unidos, os impactos se manifestam diretamente sobre a rentabilidade das fazendas. Fertilizantes representam aproximadamente 45% dos custos operacionais em culturas como milho e trigo, tornando os produtores altamente sensíveis a choques de preços. Em 2025, quase 293 fazendas americanas recorreram a pedidos de proteção contra falência, um aumento de 36% em relação ao ano anterior. Para 2026, o relatório aponta combinação negativa de custos elevados de produção e sinais de enfraquecimento da demanda, cenário que compromete decisões de plantio e investimentos no campo.

No Brasil, até o 3º trimestre de 2025, o agronegócio brasileiro acumulou 1.582 pedidos de recuperação judicial, segundo dados da Serasa Experian. Em 2024 foram registrados 2.273 pedidos de recuperação judicial, o maior número da série histórica do indicador. Fertilizantes respondem por uma fatia significativa dos custos variáveis de produção nas principais culturas brasileiras. Em lavouras como soja e milho, esse item pode representar 20% a 40% dos custos operacionais totais. Quando os preços dos fertilizantes sobem, uma parcela muito grande da estrutura de custos rurais é comprimida, reduzindo margens e pressionando a liquidez dos produtores.

O efeito chega também aos consumidores. No caso dos EUA, o aumento dos preços dos fertilizantes contribuiu para a inflação de alimentos, que se aproximou de 10% em 2022. A elevação nos custos de milho e trigo repercute em cadeias inteiras, afetando preços de carnes, laticínios e alimentos processados.

Além disso, mudanças no perfil de plantio, como a redução da área dedicada ao milho, tendem a restringir a oferta e manter os preços elevados.

O relatório é ainda mais contundente ao tratar dos países em desenvolvimento. Em 2022, o custo global de importação de fertilizantes quase dobrou, alcançando cerca de US$ 424 bilhões, afetando de forma desproporcional economias com menor capacidade fiscal. Em países como Gana, a escassez e o alto custo dos insumos resultaram em redução significativa da área cultivada e queda de produtividade. No Quênia, os preços de alimentos básicos, como a farinha de milho, subiram entre 30% e 60% no mesmo período, agravando riscos à segurança alimentar.

Por fim, Kip Tom critica a postura europeia por desconsiderar os impactos sobre agricultores fora do bloco. O relatório aponta que a Política Agrícola Comum (PAC) já impõe barreiras ao acesso de países em desenvolvimento aos mercados europeus e que as sanções a fertilizantes aprofundam esse desequilíbrio. Por isso, quando o bloco europeu prioriza objetivos geopolíticos sem um plano consistente para expandir sua própria capacidade de produção de fertilizantes, ele transfere custos elevados para a agricultura global e amplia vulnerabilidades na segurança alimentar mundial.

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