19/05/2026

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Entenda Como Este Engenheiro Molda o Futuro do Agro na Bayer

Aos 51 anos, Maurício Rodrigues ocupa uma das cadeiras mais estratégicas do agronegócio latino-americano. Presidente da divisão agrícola da Bayer na região, ele lidera cerca de 7 mil profissionais em um negócio que responde por cerca de 80% da receita da companhia na América Latina.

O cargo, que completa neste ano cinco anos, coroa uma trajetória pouco convencional no agro, marcada por finanças, gestão de riscos e uma longa convivência com ambientes de alta complexidade corporativa.

“Ninguém chega totalmente preparado para uma função desse tamanho. Os primeiros meses são de muito aprendizado, escuta e ajuste fino para entender como gerar valor de verdade”, afirma Rodrigues.

Rodrigues conversou exclusivamente com a Forbes Agro durante o Show Rural Coopavel, que começou na segunda-feira (9) e segue até sexta-feira (13), no município de Cascavel (PR). Uma das principais exposições agrícolas que abre o calendário de eventos do agro brasileiro. 

“Minha agenda aqui não é filtrada. É feita de encontros casuais. Já tive várias conversas de meia hora hoje que me deram ideias para levar ao escritório. É uma vitrine para escutar clientes, ver concorrentes e motivar o nosso time”, diz o executivo.

Uma carreira construída fora do roteiro tradicional do agro

Nascido na capital paulista, Rodrigues soma 26 anos de carreira entre Bayer e Monsanto, empresa adquirida pela multinacional alemã em 2018.

Antes de assumir a presidência da Crop Science, passou pela área financeira, onde chegou ao posto de CFO da América Latina, experiência que moldou sua visão de negócio e seu estilo de liderança.

Formado em Engenharia Civil pela USP, com MBA em Finanças pelo Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec) e pós-graduação em Controladoria pela Fundação Getúlio Vargas, construiu sua carreira distante do campo nos primeiros anos, atuando inclusive no Banco BBA, até migrar definitivamente para o setor agrícola.

Essa origem fora do agro tradicional não é tratada por ele como limitação, mas como um ativo. A vivência em bancos e finanças corporativas o colocou, desde cedo, no centro das decisões estratégicas, com foco em alocação de capital, gestão de risco e leitura de cenários.

Foi nesse ambiente que se deu a transição natural para posições de liderança mais amplas, culminando no comando do maior negócio da Bayer na região.

Rodrigues deixa claro que seu papel não é ser o especialista técnico em genética, biotecnologia ou defensivos, mas compreender a lógica estratégica por trás dessas áreas.

“Aprendi a fazer as perguntas certas e a dizer ‘não sei’”, afirma.

Esse histórico ajuda a explicar a forma como Rodrigues lê a escala e a complexidade da operação que lidera. Globalmente, a Bayer registrou um faturamento de € 46,6 bilhões (R$ 287,6 bilhões, segundo a cotação atual) em 2024, dos quais a divisão Crop Science respondeu por € 22,3 bilhões (R$ 137,6 bilhões), quase metade da receita do grupo.

No Brasil, a companhia reportou uma receita líquida operacional de R$ 6,5 bilhões em 2024, considerando as vendas combinadas dos segmentos de Crop Science, Farmacêutico e Saúde Pessoal.

Os números dimensionam o peso econômico da operação brasileira dentro do portfólio global e reforçam o papel estratégico da região na geração de resultados e no crescimento futuro da companhia.

Do escritório ao campo: aprendizado acelerado e escuta ativa

Divulgação/BayerMaurício Rodrigues, presidente da Bayer Crop Science

Ao chegar à presidência da Crop Science, Rodrigues precisou intensificar a proximidade com o campo e com o cliente. O movimento exigiu um mergulho profundo em áreas altamente técnicas, como pesquisa e desenvolvimento, melhoramento genético, soluções de proteção de cultivos, produção e regulação.

O desafio, segundo ele, não era se tornar especialista, mas compreender o suficiente para orientar decisões estratégicas.

“O desafio não é reunir talentos, mas fazê-los funcionar como um time”, resume.

A rotina passou a incluir visitas frequentes a feiras agrícolas, propriedades rurais e encontros com produtores. Estar presente, observar e ouvir tornaram-se ferramentas centrais de gestão.

Para um executivo que viveu a maior parte da vida profissional em São Paulo e no exterior, o contato direto com a realidade agrícola foi tratado como um aprendizado deliberado, quase um treinamento contínuo.

Liderar na crise: pandemia, senioridade e coesão de time

O contexto de sua chegada ao cargo adicionou uma camada extra de complexidade. Rodrigues assumiu a presidência em meio à pandemia da Covid-19, quando a empresa precisou se adaptar rapidamente ao trabalho remoto, manter resultados e preservar o engajamento de um time altamente sênior.

Liderar profissionais mais experientes do que ele próprio, em muitas áreas, exigiu uma mudança consciente de postura.

Respeitar a senioridade, identificar onde poderia adicionar valor e criar um ambiente de confiança foram prioridades desde o início.

Estratégia, inovação e um novo modelo operacional

Do ponto de vista estratégico, a gestão de Rodrigues consolidou três pilares como base do crescimento regional: inovação em sementes, proteção de cultivos e digitalização. Esses eixos estruturam o plano “Acelera”, alinhado à estratégia global da companhia e desenhado para capturar o potencial produtivo da agricultura latino-americana.

A partir de 2023, esse desenho ganhou força com a implementação do modelo Dynamic Shared Ownership (DSO), que promoveu uma reorganização profunda da estrutura interna.

A redução de camadas hierárquicas aumentou a autonomia das equipes e acelerou decisões, mas também trouxe custos humanos relevantes. O processo envolveu desligamentos e resistências, especialmente em uma companhia centenária, marcada por processos e estruturas tradicionais.

Hoje, segundo Rodrigues, a percepção interna mudou. O discurso deu lugar à prática, e o empoderamento passou a ser percebido no dia a dia do time comercial e das lideranças regionais.

Diversidade como valor, não como discurso

Outro eixo central de sua atuação está na agenda de diversidade e inclusão. Rodrigues lidera, dentro da Bayer, grupos voltados à equidade racial e de gênero e trata o tema como um valor corporativo, comparável à segurança ou à ética.

A companhia trabalha com cinco marcadores de diversidade como gênero, raça, orientação sexual, pessoas com deficiência e gerações, além de buscar avanços contínuos, sem tratar o tema como algo concluído.

Em um mercado ainda marcado pela baixa representatividade negra em cargos de alta liderança, ele reconhece o peso simbólico de sua posição.

“Em muitas reuniões, sou a única pessoa negra”, afirma, destacando a responsabilidade de provocar o debate dentro e fora da empresa.

Esse incômodo, segundo ele, precisa ser trazido para o centro do debate, como forma de provocar mudanças internas e externas. No recorte de gênero, os avanços são mais visíveis.

“No meu time direto, que tem 14 pessoas, metade já são mulheres em cargos de muito impacto. Das três posições de P&D, duas são mulheres. Nossa líder de produção na América Latina é mulher”, diz Rodrigues.

“Isso foi incentivado através de treinamento e quebra de vieses ao longo de duas décadas. Hoje o processo se torna natural, mas foi semeado lá atrás.”

A equidade salarial é tratada como regra; o desafio, agora, é ampliar o acesso feminino aos cargos de maior poder decisório em um setor historicamente masculino.

Exposição, comunicação e o peso da liderança

Comandar um negócio que representa a maior fatia da receita regional da Bayer alterou radicalmente o nível de exposição do executivo.

Se antes podia circular de forma quase anônima em eventos do setor, hoje cada gesto, palavra ou silêncio ganha repercussão. A comunicação passou a exigir preparo constante, leitura de ambiente e consciência de impacto.

Rodrigues costuma dizer que não lidera diretamente 7 mil pessoas, mas um núcleo próximo capaz de propagar cultura, estratégia e decisões. Ainda assim, reconhece que o papel exige atenção permanente, especialmente em ambientes públicos, onde a liderança se constrói também na informalidade.

Questionado sobre os próximos passos da carreira, adota um tom pragmático. Não descarta uma posição global, mas afirma viver o presente, sem pressão por movimentos futuros.

A relação com a companhia é descrita como madura, construída ao longo de escolhas conscientes. Permanecer faz sentido enquanto houver alinhamento entre propósito pessoal e estratégia empresarial.

“Já considero minha carreira um sucesso pelo que foi feito até agora. Vivo o momento. Meu chefe anterior hoje é o CEO global da companhia. Se houver oportunidades de interesse mútuo, farei, mas sem pressão. É uma relação de respeito e carinho,” diz o executivo.

No debate mais sensível envolvendo defensivos agrícolas e transgênicos, Rodrigues defende o diálogo baseado em ciência, dados e respeito às opiniões divergentes.

Para ele, a segurança alimentar global exige aumento de produtividade sem expansão de área, e a biotecnologia é parte central dessa equação. Aproximar a sociedade urbana da realidade do campo tornou-se, também, um desafio de comunicação estratégica.

É nesse espaço, entre gestão, tecnologia, pessoas e diálogo, que Rodrigues vem moldando sua marca à frente da Bayer Crop Science na América Latina, em um setor que exige cada vez mais liderança técnica, sensibilidade social e visão econômica integrada.

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