20/05/2026

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Navio com 3 mil vacas está há dois meses em alto-mar com mortes e nascimentos a bordo

Um navio transportando cerca de 3 mil vacas permanece em rota incerta desde setembro, após ter o desembarque negado pelas autoridades da Turquia por falhas na documentação sanitária e irregularidades na identificação dos animais. A situação, que já dura dois meses, reacende o debate internacional sobre as condições do transporte marítimo de animais vivos.

O incidente envolve a embarcação Spiridon II, que deixou Montevidéu em 20 de setembro com destino ao porto turco de Bandırma. O navio chegou à costa turca em 22 de outubro, mas a inspeção sanitária encontrou inconsistências que levaram à proibição imediata da descarga.

Segundo o laudo turco, 146 animais estavam sem brincos de identificação ou com brincos ilegíveis, enquanto 469 vacas tinham marcas que não correspondiam aos registros oficiais da importação. As autoridades também reportaram a morte de 48 animais durante a viagem, elevando o alerta sobre riscos sanitários e possíveis falhas no manejo.

Mortes, nascimentos e putrefação a bordo

Organizações internacionais que acompanham o caso classificam a situação dentro do navio como “degradante”. Testemunhas relataram forte odor, infestação de moscas, carcaças empilhadas e resíduos orgânicos em decomposição.

A Animal Welfare Foundation (AWF) informou que ocorreram cerca de 140 nascimentos durante a travessia, muitos de bezerras que podem não sobreviver a uma segunda viagem marítima.

A especialista da organização, Maria Boada, alertou que os animais restantes podem não resistir ao período adicional no mar, destacando a provável falta de alimento a bordo.

A veterinária australiana Lynn Simpson, referência internacional em bem-estar durante o transporte de animais vivos, reforçou as preocupações ao relatar vazamento de fluidos de carcaças em decomposição no convés. Segundo ela, a situação configura risco sanitário, ambiental e de saúde pública.

Rota indefinida

Após semanas ancorado na Turquia, o Spiridon II deixou o país em 14 de novembro, cruzou o Estreito de Çanakkale e inicialmente rumou de volta ao Uruguai, com chegada prevista para 14 de dezembro, segundo dados da plataforma MarineTraffic.

Entretanto, a rota mudou nos últimos dias. No sábado (22), o navio atracou no porto de Benghazi, na Líbia, onde parte dos animais teriam desembarcado, e, segundo a organização Mercy For Animals (MFA), partiu nesta segunda-feira (24) rumo a Alexandria, no Egito, onde deve chegar na quinta-feira (27).

A MFA avalia que os animais podem ser vendidos no Egito, já que o país possui acordo fitossanitário com o Uruguai para a importação de gado vivo.

Desde o começo desse impasse, a MFA está em contato com instituições de todo o mundo, especialmente as do Oriente Médio, para receber informações e alimentar a mídia da América Latina. Também está ativamente apoiando as demandas das instituições do Uruguai (que pedem que o governo do país receba os animais de volta, ofereça tratamento veterinário e os envie a santuários).

Problema recorrente em navios boiadeiros

Casos como o do Spiridon II não são isolados. Relatórios de organizações de bem-estar animal mostram que navios de transporte de gado, conhecidos como boiadeiros, frequentemente operam com infraestrutura precária, sobrelotação e baixa supervisão sanitária.

As condições inadequadas favorecem mortes, contaminação cruzada, proliferação de doenças e impactos ambientais, como despejo de carcaças no mar.

Brasil lidera exportação de animais vivos e pode bater recorde em 2025

O episódio também reacende o debate sobre o papel do Brasil na cadeia global. O país é hoje o maior exportador de animais vivos do mundo e, segundo estimativa da Mercy For Animals, deve ultrapassar 1 milhão de bovinos embarcados em 2025, recorde histórico.

No Congresso brasileiro, dois projetos avançaram recentemente com o objetivo de desestimular a atividade por meio de maior tributação e exigências sanitárias, o PLP 23/2024 e o PL 786/2024. Ambos tratam de mudanças no regime fiscal do setor e ganharam apoio após a repercussão de casos semelhantes envolvendo sofrimento animal e riscos ambientais.

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