De-L’ALIONEL BONAVENTURE_Getty
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Um movimento que pretende fortalecer os vinhedos em escala global, mudando a forma como as uvas são cultivadas, começa a ganhar força entre os produtores da Costa Central da Califórnia , nos EUA, e mira propriedades em outras regiões do país e do mundo. O projeto se chama “One Block Challenge” (Desafio de Um Talhão) e é, essencialmente, uma campanha liderada por “evangelistas do solo” que pregam para os dispostos à conversão, com base no princípio de plantar e cultivar como se a saúde e a sobrevivência futura da terra dependessem disso.
Idealizado pela Regenerative Viticulture Foundation (RVF) e liderado por Stephen Cronk, da Maison Mirabeau, em Cotignac, na França, e por Caine Thompson, da O’Neill Vintners & Distillers, na Califórnia, o movimento convida produtores e vinícolas a reservar apenas uma pequena parcela de seus vinhedos para adotar uma abordagem holística e multifacetada da viticultura.
A Califórnia é um centro natural para essa iniciativa. É o quarto maior produtor de vinho do mundo e o maior dos Estados Unidos, sendo que três em cada cinco garrafas vendidas no país vêm do estado. Estima-se que o impacto econômico anual da viticultura californiana ultrapasse US$ 114 bilhões (aproximadamente R$ 644 bilhões na cotação atual).
Thompson é membro do conselho da RVF e lidera programas de sustentabilidade em cerca de 6 mil hectares das propriedades da O’Neill. Como diretor-gerente da Robert Hall Winery, em Paso Robles, ele converteu todos 52 hectares do vinhedo da empresa em cultivo orgânico regenerativo, com exceção de um controle dois hectares, o maior experimento de transformação de vinhedo já realizado.
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Vinícola em Paso Robles é até agora o maior experimento de um único vinhedo em agricultura orgânica regenerativa
“Até agora, 48 produtores e vinícolas participam do projeto: Ancient Peaks, J. Lohr Vineyards and Wines, Austin Hope Wine, Copia Vineyards and Winery, LXV Winery, Allegretto Wines, Parish Family Vineyard, entre outros”, contou Thompson.
Além dessa região vinícola, o movimento da RVF pretende expandir-se para o norte, alcançando Napa e Sonoma, e, depois, o Texas. Vinhedos na África do Sul, Chile, Nova Zelândia, Inglaterra, Espanha e outras partes da França já estão em diferentes estágios de implementação do “One Block Challenge” (1BC).
A iniciativa incentiva os produtores a eliminar herbicidas, pesticidas e fungicidas sintéticos, substituindo-os por compostos naturais e evitando o uso de fertilizantes químicos. O revolvimento do solo, cada vez mais questionado, é visto como prejudicial a longo prazo, porque libera o carbono capturado pelas plantas e destrói bilhões de microrganismos benéficos. O pastoreio animal após a colheita enriquece o solo com matéria orgânica e o manejo ético e justo dos trabalhadores é parte essencial dessa filosofia.
Outro pilar é a diversificação das plantas e do ambiente. Em Paso Robles, a diversidade é evidente, especialmente na Santa Margarita Ranch, de 5,6 mil hectares, que abriga o Margarita Vineyard e a vinícola Ancient Peaks, ambas adeptas das práticas regenerativas.
Localizada a poucos quilômetros da costa, a propriedade exibe uma impressionante variedade de solos — xisto, rocha vulcânica, granito e conchas fossilizadas de ostras gigantes, de um antigo leito marinho. Em dias claros, é possível ver o Oceano Pacífico, cujas brumas esfriam e umedecem as plantações ao entardecer.
Louise L. Schiavone
Área inclui floresta, vinhedos, fazenda de gado e refúgio de vida selvagem em Santa Margarita, Califórnia
Cerca de 400 hectares são ocupados por vinhedos. O restante continua sendo um dos mais antigos ranchos de gado em operação contínua na Califórnia. Entre as fileiras de videiras, há culturas de cobertura como mostarda, leguminosas, aveia, trevo, cevada e ervilhaca. Outras, como abóbora e pistache, são mantidas apenas pela diversidade — e há também produção de mel.
O rancho mantém gado de corte, cavalos, trilhas de visitação, tirolesas, sala de degustação e café. Abriga corredores de fauna para mais de 200 espécies, entre elas águias douradas e carecas, javalis, cervos, ursos-pardos californianos, gaviões, esquilos, coelhos, linces, cobras, raposas e gatos-monteses.
Um dos proprietários, Doug Filipponi, empresário e criador de gado nascido em Paso Robles, contou uma história que resume o espírito do lugar. Um dia, ao parar o caminhão para atender ao telefone, viu um esquilo. “Eles são uma praga. Eu tinha uma carabina calibre 22 na caminhonete e atirei no esquilo. De repente, um falcão-de-cauda-vermelha desceu sobre ele. Pensei: ‘Olha só, ele vai almoçar esse esquilo’. Aí, um pouco depois, uma águia-careca apareceu e atacou o falcão, derrubou ele e levou o esquilo embora. Logo depois, chegou outra águia-careca, provavelmente a parceira. E pensei: ‘Você não vai acreditar nisso! Uma águia-careca acabou de roubar o falcão!’ E, antes que eu terminasse de falar, veio uma águia-dourada enorme, atacou as duas águias-carecas e ficou com o esquilo.”
Paso Robles é uma das mais autênticas expressões do espírito americano: uma região de beleza rústica e clima ameno, onde se vive do trabalho árduo e da convivência comunitária. Entre feiras agropecuárias, exposições de gado e jantares familiares com música ao vivo e boa comida local, os moradores desfrutam da simplicidade. A pergunta é: estarão dispostos a pagar por um vinho sustentável?
Em um momento em que as vendas de vinhos e destilados enfrentam queda após o auge da pandemia, produzir vinhos regenerativos pode parecer um risco. Cultivar de forma responsável exige mais tempo e investimento. Mas as pesquisas mostram que o consumidor está disposto a pagar por isso. Um levantamento de 2024 com consumidores multiculturais de 20 a 30 anos mostrou que 61% preferem marcas sustentáveis e familiares, e proporção semelhante prefere vinhos orgânicos.
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Caine Thompson, viticultor, Chefe de Sustentabilidade, O’Neill Vintners & Distillers
Christian Miller, diretor de pesquisa do Wine Market Council, relatou em 2025 que, em experimento comparando vinhos convencionais e sustentáveis, “os consumidores estão dispostos a pagar um prêmio significativo por um vinho produzido de forma sustentável e um prêmio moderado por um vinho orgânico”.
O feriado de Ação de Graças, em quarta quinta-feira de novembro, costuma impulsionar as vendas, já que muitos optam por levar vinhos americanos à mesa. Thompson servirá Cabernet Sauvignon da Robert Hall e Pinot Noir de Sonoma Coast. O grupo de Filipponi escolherá Merlot da Ancient Peaks com o peru e Oyster Ridge com o filé de costela. Chardonnay e Sauvignon Blanc também estarão presentes.
Thompson e outros defensores do One Block Challenge afirmam que a ampliação das práticas regenerativas pode gerar terras mais férteis, colheitas mais saudáveis e benefícios climáticos.
“Mas o resultado final precisa ser um sistema inclusivo. Tem que ser aberto, compartilhado, encontrar as pessoas onde elas estão. Não pode ser um movimento elitista de propriedades que vendem garrafas de 50 a 100 dólares (entre R$ 280 e R$ 560) e só poucos podem comprar. As pessoas que trabalham nas vinhas devem ter acesso a bons vinhos, alimentos produzidos sem resíduos de pesticidas, densos em nutrientes e de alta qualidade. E a agricultura regenerativa faz isso”, diz Thompson.