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A abóbora esculpida na porta de entrada conta apenas metade da história. O Halloween, comemorado nesta sexta-feira (31), como o conhecemos hoje, nasceu no meio da lavoura, entre celtas que dependiam da terra para atravessar o inverno. Hoje, o Halloween é festa de consumo, entretenimento e fantasia, mas antes de tudo isso, foi e continua sendo uma festa de colheita.
Os celtas olhavam para a última colheita sabendo que ela determinaria quem sobreviveria ao inverno. Hoje, podem ser poucas as pessoas que olham para abóboras decoradas e outros símbolos, sem pensar em quem as plantou. Isso mostra que a celebração mudou de cara, mas a dependência da terra permanece intacta. Na Europa, ainda hoje há
celebrações históricas celtas de origem no Halloween, com druidas, dríades, náiades, guerreiros e meigas bruxas, personagens dessa tradição.
Há mais de 2 mil anos, os povos celtas da Irlanda, Escócia e País de Gales celebravam o Samhain no final de outubro, porque ela encerrava o ano agrícola e abria as portas para o período mais difícil: o inverno europeu.
Os celtas viviam da agricultura e da criação de animais. Quando o verão terminava, era preciso garantir alimento para os meses seguintes. As últimas plantações eram colhidas, os animais recolhidos dos pastos. Com isso, parte do rebanho era abatida e outra parte separada para reprodução. Tudo girava em torno da sobrevivência.
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Representação teatral do Hallowen na Europa
O Samhain durava três dias. As famílias acendiam fogueiras, preparavam banquetes com o que haviam colhido e agradeciam pela fartura. A festa celebrava o trabalho nos campos e a generosidade da terra.
Da Europa Medieval aos Campos Americanos
Na Idade Média, a tradição se transformou. Camponeses pobres iam de casa em casa pedindo bolos e alimentos em troca de orações pelos mortos das famílias. O costume redistribuía a colheita entre quem tinha fome. Os mais ricos ofereciam pães, frutas e cerveja feita com grãos locais.
Quando a fome devastou a Irlanda em 1845, milhares de irlandeses migraram para os Estados Unidos. Foram eles que levaram para o país o Samhain, que encontrou uma aderência quase imediata nas fazendas americanas.
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Lavouras de abóboras e milho, alimentos clássicos do Halloween
Os nabos usados para fazer lanternas na Irlanda deram lugar às abóboras, plantadas em abundância pelos agricultores locais. O milho virou decoração em forma de espantalhos. A cidra de maçã, produzida nos pomares dos Estados Unidos, entrou nos festejos. Os donuts, feitos com farinha de trigo das colheitas de outono, se tornaram tradição.
Fato é que o Halloween americano mantinha a essência agrícola, mas adaptava os ingredientes à terra disponível.
O Fio que Liga a Foice à Fantasia
O Halloween moderno parece distante das fogueiras celtas e dos campos irlandeses. Mas a conexão permanece. Cada abóbora vendida para decoração vem de alguma plantação. Alguém preparou o solo, plantou as sementes, irrigou, colheu.
O milho dos espantalhos decorativos saiu de alguma lavoura. As maçãs para fazer cidra foram cultivadas em pomares. Até os doces industrializados dependem de açúcar, cacau, leite, ingredientes que começam na terra. A festa que nasceu para agradecer pela colheita se transformou em comércio. Mas continua amarrada ao campo. O agronegócio alimenta o Halloween tanto quanto alimenta tudo o mais.
No Brasil, o Halloween chegou muito tempo depois, trazido pela televisão e pelo cinema. Filmes e séries dos anos 1990 e 2000 apresentaram a festa para gerações que cresceram conectadas à cultura americana.
O país tropical, sem as estações marcadas da Europa ou da América do Norte, incorporou a celebração de forma diferente. Aqui não existe colheita de outono em outubro. O calendário agrícola brasileiro segue outro ritmo. Mas a festa encontrou espaço entre jovens urbanos, escolas de idiomas e o comércio.
Segundo pesquisa da Ecglobal com quase 800 pessoas realizada no ano passado, a adesão é maior entre os mais jovens: 78% das pessoas entre 18 e 34 anos celebram a data, sendo que 77% deles fazem isso todos os anos. Outro dado do estudo: 45% dos brasileiros que celebram adaptam as práticas para algo mais próximo da cultura local.