_Bernardo_Medeiros_Forbes
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No coração de Belém, onde o Teatro da Paz ergue suas colunas desde 1879 e os cheiros de jambu e tucupi perfumam as manhãs, Fafá de Belém tece uma rede de vozes que o Brasil ainda não aprendeu a escutar. Em uma longa entrevista à Forbes, entre suas famosas risadas largas que são uma marca registrada – e muita disposição para contar sobre aquilo que acredita –, ela teceu os detalhes de uma jornada que não começou ontem.
Há três anos, a cantora criou o Fórum Varanda da Amazônia, um encontro que nasceu de uma indignação visceral: estar em Nova York, numa reunião do Pacto Global sobre a COP30, e perceber que “não tinha pensador amazônico, não tinha artista amazônico, não tinha poeta amazônico, não tinha professor, pesquisador, não tinha pensador, não tinha fotógrafo, só existiam três meninas fantasiadas de indígenas como se nós só prestássemos para alegoria de festa”.
A artista não hesitou. Ligou para Eugênio Pontos, do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), e perguntou: “A gente consegue fazer um fórum onde tenha pensadores amazônicos?” Era menos de um mês antes da Varanda de Nazaré, seu festival que há 15 anos movimenta Belém no período do Círio. “E fizemos o primeiro fórum, onde era recebido as pessoas que têm interesse, pesquisadores, conhecedores de fora da Amazônia, para debatem com pessoas que vivem lá.”
Aryanne Almeida
Fórum Varanda da Amazônia de 2024
O que começou como uma resposta urgente ao apagamento amazônico se transformou no maior espaço de debate sobre a região no país. “Ano passado foi uma loucura, porque tinha coletivo de mulheres, de ribeirinhos, de quilombolas, coletivo trans discutindo o lugar na Amazônia com coletivos trans daqui”, conta Fafá. O fórum, realizado em parceria com a Universidade Federal do Pará, já registra mais de mil inscritos para a edição de 2025, que acontece em outubro. “Os alunos ganham ponto matéria extracurricular. Esses inscritos participam num debate, se colocam durante o debate, fazem perguntas, enfim. É muito vivo.”
Para Fafa, a pluralidade é o DNA desse encontro e é como ele tem sido pensado e construído. “Como não é fórum chapa branca, pode se falar de tudo e nós podemos colocar contrários quebrando pau, que é o que eu mais gosto”, afirma Fafá. Este ano, o painel mais desafiador será sobre a exploração de petróleo na Foz do Amazonas, com defensores e opositores em debate mediado. “Todas muito preparadas e todas muito embasadas princípios e estudos para serem contras, para serem a favor, porque não adianta você ouvir só os seus ou só os outros, você não chega, você não caminha.”
A COP30 e o reconhecimento de quem sempre esteve lá
Quando a COP30 foi confirmada para Belém, Fafá viu mais que uma conferência climática chegando à cidade. Enxergou a chance de um reconhecimento histórico que a Amazônia aguarda há décadas. “Nosso apagamento, o apagamento da Amazônia começa quando nós aderimos à República. Nós fomos lentamente tirar dos centros de acontecimentos e viraram de costas para nós. O sudeste virou de costas para nós.”
Aryanne Almeida
Evento discute o futuro e os desafios da região
A cantora relembra que Belém já foi uma das capitais culturais do Brasil, dividindo protagonismo com o Rio de Janeiro na época da borracha. “As grandes famílias do Marajó ou do Lula de Ciringaes mandavam as roupas serem lavadas na Europa. Porque a água é barrenta. Belém é francesa, Belém é italiana e Belém é fundamentalmente portuguesa.” Esse passado de importância econômica e cultural contrasta com o abandono posterior: “Quando eu saí de Belém há 50 anos, àquela altura, o Brasil existia até a Bahia. Hoje ele chega pouco a Pernambuco. Mas a Amazônia continua sendo território desconhecido e como se fosse inapropriado.”
A crítica se estende aos artistas internacionais que falam da Amazônia sem conhecê-la. “Há uns três anos, quando o Coldplay esteve aqui, que tinha imagem da Amazônia tudo, era lugar, o Coldplay, Amazônia, o que você acha? Acho absurdo. Eles tinham que pegar e fazer essa turnê lá dentro da Amazônia.” Para Fafá, solidariedade real significa presença física e investimento local: “Então tragam pessoas e vão lá e apoiem, descubram as pessoas que eles possam apoiar.”
A COP30 representa uma oportunidade única de mudança. “Eu acho que o tema mais quente é o reconhecimento do cidadão amazônico. Não tem mais nada mais quente do que isso. A Amazônia só terá solução a partir de ouvirem desde o homem simples, que não pode mais tomar banho de rio porque foi poluído e não foi por ele, aos grandes pesquisadores.” A diferença desta COP, segundo Fafá, é geográfica e simbólica: “No caso de Belém, a COP, a Belém é cidade que tem uma saída só. Só tem uma entrada de carro. A COP está na cidade.”
A cultura como ponte entre mundos
Aos 69 anos e com 50 de carreira, Fafá de Belém se tornou muito mais que uma intérprete de sucessos como “Vermelho” e trilhas de novelas. Ela é uma guardiã da cultura amazônica e uma articuladora incansável de talentos regionais. “Eu não tenho conhecimento erudito ou acadêmico da Amazônia, eu tenho a vida na Amazônia”, define-se. É dessa vivência que nasce sua autoridade para falar sobre preservação cultural.
A Varanda de Nazaré, seu festival anual, se transformou numa vitrine da produção amazônica. Nos primeiros anos, 90% dos artistas vinham de fora de Belém. Hoje, 95% são paraenses. “Até as pessoas que estão aqui agora fazendo trabalhos remotos, tem muita gente de Belém que mora aqui pra entender o que a gente quer falar.” A mudança mostra uma escolha consciente de valorização do talento local. “Cada espetáculo que eu fizer durante o período da COP, como eu faço há 15 anos na Varanda, eu levo eles. Pessoas que vivem de Belém fazem a arte acontecer Belém.”
J Brarymi_Getty
Uma presença de longa data, no Círio de Nazaré, em 2012
A preocupação com a autenticidade cultural permeia todo o trabalho de Fafá. Ela conta sobre um artesão que fazia urnas tapajônicas no Santarém: “Quando eu cheguei Belém, encontrei com grande amigo meu chamado Paulo Chaves Fernandes, foi secretário de cultura, eu falei, Paulo, que lindo, ele falou, pois é, faz, tem que preservar isso, antes que daqui a pouco ela chegue de plástico da China.” A preservação não é nostálgica, mas urgente: “Se esse menino que ajudava o avô dele a a massa e trabalhar as urnas e vi encantamento naquilo. Se de repente é cooptado para ser outra coisa, ele abandona porque aquela urna não vende mais.”
Para Fafá, a música é o instrumento mais poderoso de transformação. “A música abre qualquer caminho. A música, ela quebra resistências, ela une corações, ela quebra a barreira da língua. A música é estado de magia.” Essa convicção move tanto o fórum quanto a varanda, sempre emoldurados por apresentações musicais que vão do erudito ao tecnobrega, do carimbó às aparelhagens. “A gente chama pra reflexão, né? Mas nada é muito pesado.”
Seu legado se constrói na teimosia de mostrar que a Amazônia não é apenas floresta ou alegoria. “Nós temos grupo que faz cultura e faz cultura a sério. Cada espetáculo que eu fizer durante o período da COP, como eu faço há 15 anos na Varanda, eu levo eles. Pessoas que vivem de Belém fazem a arte acontecer Belém sem qualquer tipo de fantasiado de cor de pena com uma pena enfiada de LED no ouvido.”
Paulo Amorim_Getty
Fafa fala dos cheiros de frutas e de seu simbolismo, como o Mercado Ver o Peso
Com a COP30 se aproximando, Fafá vê a chance de um recomeço. “Quem destrói a Amazônia não é o amazônico. Não é o amazônico. Quem toca fogo não é o caboclo. Quem desmata não o caboclo.” Sua mensagem para o mundo pós-conferência é clara: “Há uma possibilidade, sim, e há uma gente lá que saberá fazer muito mais do que nós se nós demos estrutura e os dois lados se ouvirem. Há uma possibilidade de salvação da Amazônia, planeta, se nós olharmos quem sofre diretamente com isso.”
O futuro que Fafá imagina passa pelo reconhecimento da complexidade amazônica. “Deixem de falar das comunidades amazônicas, os indígenas são uma das comunidades. Os quilombolas, os ribeirinhos, homens e mulheres da floresta, homens e mulheres da periferia, homens e mulheres das grandes cidades. Nós somos tudo isso, extrativistas.” É nessa multiplicidade de vozes que ela deposita sua esperança de transformação, uma nota de cada vez, um debate de cada vez, até que o mundo aprenda a escutar a sinfonia completa da Amazônia.