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Diz-se que a água é fonte de vida. Mas também de sucesso. Foi o que aconteceu, por uma escolha visionária, com a família de Alberto Bertone, que hoje lidera o Grupo Sant’Anna (340 milhões de faturamento) como presidente e diretor executivo. Empresários do ramo da construção civil, os Bertone, certo dia, há quase 30 anos, decidiram procurar água. Mas não com a varinha de um radiestesista, e sim com a intenção de comprar uma fonte e começar a produzir água mineral.
Essa fonte foi encontrada em Vinadio, no alto do Vale Stura, nas proximidades de Cuneo. Um negócio nos antípodas daquele em que já tinham tido sucesso, uma verdadeira aposta, quase um risco, considerando que no setor da construção naquela época se ganhava bem, com margens elevadas, enquanto no das águas minerais para a grande distribuição falava-se de grandes volumes, mas com margens pequenas.
“Mas um empresário não deve olhar apenas para os balanços”, conta hoje Alberto Bertone nesta entrevista à Forbes, “deve também deixar-se levar pela emoção, seguir uma intuição. Foi exatamente isso que aconteceu conosco. Porque se tivéssemos pensado nas dificuldades do mercado, jamais teríamos comprado aquela fonte. E, no entanto, deu certo”.
Mas como encontraram essa nascente?
Começamos a procurar nascentes ao longo dos Alpes piemonteses, até encontrarmos a certa. Falaram-nos da qualidade superior da água que brota nos vales que dominam Vinadio, no coração dos Alpes Marítimos, na província de Cuneo. Fomos várias vezes ao local, realizando vistorias, testes e análises. Após uma longa caminhada na montanha, provamos aquela água que brota em um ambiente intocado, autêntico, a quase dois mil metros de altitude. Entendemos imediatamente o potencial do produto e começamos a sonhar. Brincando dissemos: vamos levá-la à mesa dos italianos. Falávamos assim, apenas por dizer. Naquele tempo, nem sabíamos o que era a grande distribuição e como funcionava.
Já se percebia que a nascente tinha grande capacidade?
Não tínhamos certeza. A nascente surgia isolada, mas depois se unia a outras, dispersando-se ao longo das montanhas.
Então, basicamente, vocês canalizaram a água?
Contratamos especialistas e criamos sistemas de ponta para canalizar a água sem possíveis contaminações, tal como ela brota, pura e intocada, a 1.950 metros de altitude. A água chega ao estabelecimento de Vinadio através de tubulações em vários trechos, num total de 600 km. Em seguida, é armazenada em 11 tanques de aço inox com capacidade de um milhão de litros de água cada. Dali partem imediatamente as linhas de produção e a água é engarrafada na hora, a fim de conservar intactas as suas características organolépticas.
Onde fica?
A fábrica está localizada em Vinadio, no fundo do vale, a cerca de 1.000 metros de altitude. Estende-se por 60 mil metros quadrados e conta com um sistema de produção de última geração, que se tornou um modelo de fama mundial, estudado com atenção por muitas grandes empresas internacionais que já quiseram visitar a fábrica, um verdadeiro joia hi-tech em um tranquilo vale alpino.
Em que ano vocês descobriram a nascente?
Foi em 1996 que descobrimos a nascente, não faz tantos anos. Acqua Sant’Anna é uma das empresas mais recentes do setor. A atividade começou justamente em 1996 e, em poucos anos, nos tornamos líderes do setor com o formato mais importante da água mineral, a garrafa de um litro e meio. Concentramos-nos imediatamente nesse segmento. A partir daí, à medida que crescíamos, começamos a diversificar. Hoje produzimos todos os tipos de formatos, de 0,25 a 0,35, de meio litro a 0,75, de um litro a um litro e meio, até dois litros. Temos ainda embalagens em diversos materiais: plástico, RPet, alumínio, vidro e tetrapak.
Vocês também são muito ativos na pesquisa de novos materiais para engarrafamento.
Sim, não por acaso Acqua Sant’Anna foi a primeira marca do mundo a lançar no mercado de massa uma garrafa de água mineral de 1,5 litro biodegradável e compostável, quando destinada aos locais adequados de compostagem industrial após separação da tampa de plástico. Foi em 2008 que lançamos essa bio-garrafa, feita com um biopolímero especial obtido da fermentação natural dos açúcares contidos nas plantas. A Sant’Anna Bio Bottle não contém nem uma gota de petróleo, foi uma revolução histórica no setor de embalagens.
É biodegradável?
Biodegradável e compostável. Isso significa que, quando destinada aos locais de compostagem industrial, se dissolve em até 80 dias.
Como surgiu a ideia?
Vi que nos Estados Unidos esse biopolímero vegetal era usado para utensílios descartáveis. Conversei com vários produtores até encontrar o melhor parceiro para começar a produzir a bio-garrafa.
Por quê?
Fizemos muitos testes e, no fim, conseguimos criar uma garrafa idêntica à de plástico. Escolhemos a cor verde para nos diferenciarmos da azul normal. No início foi um grande sucesso, era a primeira alternativa às garrafas de Pet que atendia às necessidades de quem queria reduzir o consumo de plástico. Depois, os custos da matéria-prima aumentaram, gerando uma alta no preço do produto nas prateleiras. Na grande distribuição, o preço é o principal fator de escolha do consumidor e isso causou uma desaceleração nas vendas. A Bio Bottle ainda é distribuída e está disponível, mas com números menores do que no início.
Então o preço supera a defesa do meio ambiente…
A variação do preço dos produtos na prateleira continua sendo uma das principais alavancas de escolha do consumidor. O preço final é condicionado pelo aumento do custo das matérias-primas e, sem incentivos, é difícil oferecê-los no mercado a preços competitivos.
Mas como, os consumidores não são sensíveis aos problemas ambientais?
Hoje há grande atenção ao meio ambiente, uma sensibilidade crescente, mas apenas uma pequena porcentagem de consumidores está disposta a gastar mais por um produto sustentável. A grande distribuição privilegia os produtos que geram grandes volumes, por isso não é fácil oferecer nas prateleiras produtos inovadores e sustentáveis.
Em que faixa de preço Sant’Anna se posiciona?
Estamos na faixa médio-alta do mercado. É a única faixa que permite realizar investimentos. A faixa de primeiro preço não permite. Os investimentos são fundamentais para modernizar e tornar as fábricas mais eficientes, para sermos cada vez mais competitivos e desenvolver a distribuição, arcando com os custos de inserção nas redes de grande distribuição.
Até agora falamos apenas de água. Mas Sant’Anna não é só água mineral…
Estamos no mercado de chás com a linha SanTHÈ, um mercado complicadíssimo, no qual entramos sem nenhuma experiência. Tivemos que enfrentar multinacionais com marcas fortíssimas e consumidores muito fiéis, mas não nos assustamos: em pouco tempo nos tornamos a terceira marca da Itália no setor de chás.
Mais recentemente, lançamos a linha Fruity Touch, três delicadas variações de águas frutadas com baixo teor calórico, e estreámos no segmento beauty&wellness com a linha Sant’Anna Beauty, composta pela primeira bebida com colágeno adicionada com zinco, à qual se juntou o suplemento alimentar com ácido hialurônico e zinco. Por fim, apresentamos Sant’Anna Pro, bebida com 15 g de proteínas + zinco em água mineral natural Sant’Anna, e relançamos a linha de bebidas de frutas SanFruit.
Água nos sucos de fruta?
Sim, a nossa água. SanFruit é uma nova linha de bebidas que une a leveza da água Sant’Anna a 25-30% de sucos de fruta, sem adição de açúcar. É pensada para quem deseja uma alternativa saborosa, fresca e leve, para quem prefere bebidas menos açucaradas e densas.
Tudo isso significa um faturamento de…?
De cerca de 340 milhões de euros. Passamos de zero a 340 milhões em 28 anos, com crescimento constante a cada ano. E continuamos crescendo. Em 2024, alcançamos o recorde de todos os tempos. Conseguimos aumentar tanto os lucros quanto os volumes. Adquirimos a marca Eau Neuve na França, que estamos desenvolvendo muito bem. Lá temos cerca de cem funcionários, além dos 250 que temos na Itália.
Muitos trabalhadores da região?
Praticamente todos vêm da região, de Vinadio e arredores. Empregamos 250 pessoas que vivem em alta montanha, onde as alternativas estão ligadas sobretudo ao setor primário. Além disso, damos grande atenção aos jovens da região que se formam, com o objetivo de oferecer a eles um emprego na empresa, especialmente se interessados em desenvolver o mundo da informática e da robótica.
Quantas garrafas vocês produzem hoje?
No que diz respeito à água, somos a marca líder na Itália e co-líder na Europa, junto com outra marca francesa. Hoje produzimos mais de 350 referências e dez formatos diferentes, alcançando um total de vendas de cerca de 1,5 bilhão de garrafas. Queremos crescer no exterior, sobretudo na Europa, buscando estratégias adequadas para enfrentar a grande incerteza dos mercados causada pela questão das tarifas dos EUA e pelos aumentos dos custos logísticos e produtivos.
Como vão os mercados externos?
Estamos presentes em todo o mundo. Em alguns casos, firmamos acordos diretos com a grande distribuição no exterior, em outros recorremos a importadores que distribuem o produto. A abordagem direta nos mercados estrangeiros é, para nós, a melhor, embora mais cara e exigente. Confiar nos importadores gera maiores incertezas, pois ficamos diretamente condicionados pelo andamento do negócio deles. Contudo, em algumas áreas, como a Ásia e os países árabes, não há alternativa aos importadores para acessar o mercado.
Grande atenção ao meio ambiente. Então também grande atenção à sustentabilidade?
Para nós, sustentabilidade significa buscar soluções de produto e de processo que impactem o mínimo possível o meio ambiente. Mas não só isso. Para nós, as pessoas são fundamentais, nossos funcionários. Temos uma fábrica totalmente robotizada, mas são as pessoas que controlam os robôs. As pessoas ainda fazem a diferença. Portanto, precisamos cuidar delas. Por exemplo, em 2022, quando o custo de vida disparava e o lockdown colocava à prova os gastos dos funcionários, decidimos conceder a eles um salário mensal adicional. Ao longo dos anos, investimos muito em bem-estar corporativo com iniciativas de apoio e proximidade aos nossos colaboradores, de caráter econômico, de orientação e de prevenção em saúde, organizando serviços de rastreamento e prevenção oncológica.
O senhor também é apaixonado por arte. Transferiu essa paixão também para o trabalho?
A empresa abraçou um projeto de “culturalização” do ambiente corporativo, iniciado com algumas fotos de Silvano Pupella na fábrica de Vinadio, depois continuado com a obra de Marco Lodola Per Aqua Ad Lucem, uma explosão de luz e cor para representar a icônica garrafa de Acqua Sant’Anna, e ainda com artistas do porte de Gérard Courbouleix-Dénériaz, conhecido como Razzia, Alessandro Ciffo e Ugo Nespolo.
Onde as obras estão expostas?
Após alguns eventos de apresentação, como na Galleria Still de Milão, todas as obras hoje estão presentes em nossa sede de 2.500 metros quadrados em Orbassano, na província de Turim. Acredito firmemente que um local de trabalho acolhedor e embelezado pela arte permite que as pessoas trabalhem melhor.
Falávamos antes sobre os investimentos indispensáveis para acompanhar o mercado. Como vocês estão agindo?
Nossa política sempre foi realizar investimentos contínuos. A cada três ou quatro anos trocamos parte das instalações. Hoje a fábrica é totalmente automatizada e é uma das maiores unidades produtivas do mundo, com 16 linhas de engarrafamento (13 para a água e três para as bebidas). Nos próximos meses entrará em funcionamento uma nova linha para bebidas (chás gelados), altamente eficiente, cinco vezes mais rápida que as atuais.
Sant’Anna é uma empresa altamente robotizada. Mas os robôs não acabam tirando o trabalho das pessoas?
De forma alguma. O constante avanço tecnológico e da automação nos permitiu ser mais eficientes e rápidos, entregando nosso produto em toda a Itália em menos de 24 horas. A robotização nos permitiu ter um custo muito mais baixo do produto e permanecer no mercado. A robotização, assim como a inteligência artificial, não reduz empregos, mas cria outros mais especializados, impensáveis até pouco tempo atrás, e melhora a forma de trabalhar.
Última pergunta. Voltando ao início. E a empresa de construção com a qual sua família começou, que fim levou?
A empresa de construção continua no nosso negócio. Minha família tem duas grandes paixões: as construções e as águas minerais. Hoje, o mundo das águas ocupa 90% do meu tempo, enquanto meu irmão Fabrizio segue a empresa de construção. Ainda assim, não deixo de fazer alguns investimentos pessoais no setor da construção. Como se diz? O primeiro amor nunca se esquece.