15/04/2026

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John Deere, JBS e Bayer Dizem Que Brasil Precisa Agir para Não Perder Liderança no Agro

V.Ondei

Alfredo Miguel, Gilberto Tomazoni, arissa Wachholz, e Márcio Santos

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Na pauta, um dos dilemas centrais do setor: como o Brasil pode manter e ampliar sua liderança em alimentos e energia em um mundo de cadeias produtivas instáveis, disputas comerciais acirradas e novas regras ambientais que desafiam o modelo tropical de produção. No palco principal do Congresso Brasileiro do Agronegócio, promovido pela ABAG nesta segunda-feira (11), um encontro com executivos de peso e uma especialista em geopolítica trouxe os dilemas atuais.

A conversa entre Alfredo Miguel, diretor de Assuntos Corporativos, Comunicações e Cidadania para América Latina da John Deere; Gilberto Tomazoni, CEO global da JBS; Márcio Santos, CEO da Bayer Brasil, mais Larissa Wachholz, senior fellow do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI), rapidamente desdobrou-se em um mapa de riscos e oportunidades, atravessando a política comercial dos Estados Unidos, a estratégia de segurança alimentar da China, a pressão europeia por normas ambientais e a necessidade de resolver gargalos internos que se arrastam há décadas.

Três pontos se entrelaçaram: o Brasil precisa manter competitividade no campo e nas negociações comerciais; diversificar mercados para reduzir vulnerabilidades geopolíticas; e investir de forma coordenada em inovação pública e privada. Para eles, reagir a crises e tarifas, como as atuais impostas pelo governo do presidente dos EUA, Donald Trump é agir de forma estratégica, usando a força do agro local.

Alfredo Miguel, traduziu o impacto dessa nova geografia econômica na operação de uma multinacional que exporta equipamentos agrícolas para mais de 50 países a partir do Brasil. Para ele, a volatilidade das cadeias de suprimento exige uma revisão profunda das rotas de exportação, da origem dos insumos e das políticas públicas.

“Nós carregamos o custo Brasil e, ao mesmo tempo, vemos entrar máquinas importadas de países como a China sem que haja políticas convergentes. É preciso sentar com o governo e definir um plano de curto, médio e longo prazos que considere a reorganização global, que hoje está desorganizada”, afirmou ele.

A ideia de reorganização e planejamento de longo alcance encontrou eco em Márcio Santos, que reconheceu avanços históricos do agro brasileiro, mas alertou para riscos de retrocesso. Ele lembrou que a revolução da agricultura tropical se construiu sobre quatro pilares: ambiente institucional robusto, infraestrutura, inovação tecnológica e profissionalização no campo.

“O dilema da abundância é que, quando se atinge alto nível de competitividade, começam disputas internas que enfraquecem a base construída. É hora de um pacto para preservar o que nos trouxe até aqui”, disse Márcio Santos.

Ao enumerar ameaças concretas, citou a fragilidade no crédito, as mudanças regulatórias que podem afetar insumos e biotecnologia e as disputas políticas dentro do próprio setor.

Enquanto os executivos discutiam a necessidade de arrumar a casa internamente, Larissa Wachholz, trouxe para o centro da mesa a pressão externa. Usou como exemplo recente a intenção do ex-presidente americano Donald Trump de exigir que a China quadruplicasse suas compras de soja dos Estados Unidos.

“Hoje o Brasil fornece cerca de 70% da soja importada pelos chineses, e essa concentração foi parte de uma estratégia de diversificação de fornecedores de Pequim. Mas eles não estão confortáveis com essa dependência e já trabalham para reduzi-la”, disse Larissa.

A executiva listou medidas recentes da China para diminuir importações, como ajustes na formulação de rações e controle mais rigoroso de estoques. E alertou: a disputa entre as duas maiores economias do mundo não deve levar o Brasil a escolher um lado, mas sim a diversificar mercados. Citou Índia, Malásia e Indonésia como oportunidades já em negociação. “Somos uma potência média e devemos manter portas abertas para todos os que queiram investir e comprar de nós”, disse.

Gilberto Tomazoni, colocou sua larga experiência na mesa. Para ele, a diversificação geográfica e de portfólio é a principal defesa contra choques como crises sanitárias, problemas tarifários e oscilações no ciclo das commodities.

“Se uma operação enfrenta dificuldades, outra pode sustentar o caixa necessário para continuar investindo. Essa foi uma decisão acertada e que precisa ser reforçada”, afirmou.

Mas Tomazoni trouxe outro ponto de fricção com o cenário internacional: as regras ambientais impostas por mercados como a União Europeia. Ele criticou as metodologias europeias usadas para calcular as emissões de carbono da pecuária. Segundo o executivo, as regras atuais ignoram a captura de carbono realizada por sistemas produtivos integrados no Brasil e, por isso, distorcem o impacto real da atividade. “O cálculo só considera as emissões, sem levar em conta a fotossíntese das gramíneas, que retira carbono do ar e o estoca no solo e nas raízes”, afirmou.

Tomazoni destacou que, além de gerar proteína, os ruminantes contribuem para a saúde do solo, reduzindo a necessidade de fertilizantes importados e defensivos. Para ele, a adoção de parâmetros baseados na agricultura temperada penaliza desnecessariamente o modelo tropical. “O sistema lavoura-pecuária-floresta captura carbono, mas estamos sendo julgados por normas que desconsideram isso e limitam o acesso de nossos produtos à Europa”, disse.  Para ele, esse tipo de norma, prejudica países tropicais e precisa ser contestada com dados técnicos validados internacionalmente.

“Acho que nós evoluímos muito, porque nós temos hoje exemplos reais de produtores que têm 10 anos de medições (de emissões), na Fazenda Roncador (em Mato Grosso), com um trabalho técnico feito pela Embrapa, que valida os dados com que foram feitos esses cálculos”, diz ele. “Agora contratamos a Universidade do Kansas para fazer trabalhos semelhantes, porque temos que ter uma validação que não seja só brasileira, para dar muito mais corpo a isso, validando. E nós estamos levando isso para a COP30”

Outro ponto para a competitividade foi sobre a importância da inovação e da pesquisa. Alfredo Miguel alertou para o enfraquecimento de centros públicos, como a Embrapa, e defendeu que empresas privadas também mantenham investimentos consistentes em desenvolvimento. Citou o centro de P&D da John Deere no Brasil, que projeta máquinas adaptadas ao mercado local e já exporta modelos, como colhedoras de cana de duas linhas. “Sobrevivência e crescimento no setor dependem de tecnologia, geração de emprego e renda. Precisamos ser protagonistas, e não vítimas, do cenário global”, afirmou.

Ele também insistiu na necessidade de unir entidades representativas para levar ao governo propostas conjuntas. Larissa reforçou que a abertura a diferentes parceiros e teses econômicas é uma vantagem estratégica para o Brasil. Márcio reiterou que, sem preservar as bases institucionais e regulatórias que permitiram o salto do agro, o país pode comprometer seu futuro. E Tomazoni propôs usar a liderança tecnológica do Brasil como ferramenta diplomática, levando conhecimento e métodos para países que enfrentam insegurança alimentar, fortalecendo assim o comércio e a influência internacional.

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