Com 24 usinas em funcionamento, Mato Grosso desponta como referência na produção de biogás a partir da suinocultura, aliando economia à sustentabilidade no campo.
A transição energética deixou de ser apenas uma pauta de futuro e já movimenta diversas cadeias produtivas no Brasil. Em Mato Grosso, um exemplo claro disso vem do setor da suinocultura, onde o que antes era visto como resíduo, fezes, urina e restos orgânicos, hoje se tornou fonte de energia limpa e renovável. A prática, cada vez mais comum nas propriedades rurais do estado, transforma dejetos suínos em biogás, que é utilizado para geração de energia elétrica nas próprias fazendas.
Segundo dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), o estado conta atualmente com 24 usinas de biogás oriundas da atividade suinícola, somando cerca de 11 mil quilowatts (kW) de potência instalada. As unidades estão distribuídas em municípios como Sorriso, Lucas do Rio Verde, Campo Verde e Tapurah, todos com forte presença do agronegócio.
Para a Associação dos Criadores de Suínos de Mato Grosso (Acrismat), os benefícios ambientais e econômicos tornam esse modelo altamente atrativo. “Uma granja com mil matrizes gera um volume significativo de dejetos, que precisam de destinação adequada. Ao transformá-los em energia, o produtor reduz custos e ainda colabora com as boas práticas de sustentabilidade que o setor já adota”, destaca Custódio Rodrigues, diretor executivo da entidade.
Estrutura simples, resultado poderoso
A instalação de uma usina de biogás exige uma estrutura relativamente simples, composta por biodigestores, grandes tanques vedados onde ocorre a fermentação anaeróbica da biomassa e motores geradores de energia. O retorno do investimento varia conforme o porte da propriedade, podendo acontecer entre dois e sete anos.
O processo de conversão é direto: o esterco é coletado e levado ao biodigestor, onde bactérias se encarregam da decomposição do material orgânico, gerando o gás. Esse biogás é então direcionado aos motores, que o convertem em eletricidade. O material residual ainda pode ser reutilizado como biofertilizante, enriquecendo o solo e reduzindo a necessidade de insumos químicos.
Fazenda modelo une sustentabilidade e rentabilidade
Um exemplo bem-sucedido dessa tecnologia é a Fazenda Seis Amigos, localizada em Tapurah. Com uma área de 14 mil hectares e atuação em suinocultura, bovinocultura, produção de feno e energia (biogás e solar), a propriedade encontrou nos dejetos suínos uma fonte valiosa de energia e economia.
“Nosso objetivo era reduzir os custos com energia, buscando autossuficiência. Percebemos que os próprios resíduos da produção poderiam se tornar esse recurso”, explica Evandro Martimiano, sócio e diretor de operações da fazenda.
Com um plantel de mais de 13.500 matrizes e três granjas em operação, a fazenda gera mensalmente cerca de 330 mil kW de energia por meio de 18 biodigestores — volume suficiente para abastecer toda a estrutura e ainda garantir excedente.
Além dos ganhos financeiros, a fazenda tem um forte compromisso ambiental. “Nos preocupamos com o descarte adequado dos resíduos, fazemos separação do lixo nas granjas e captamos o gás para uso antes que ele seja liberado na atmosfera. São ações que fazem parte da nossa responsabilidade ambiental”, completa Evandro.