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O agronegócio brasileiro, motor da economia responsável por quase 25% do PIB nacional segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP, enfrenta um paradoxo de risco crescente. Enquanto a área cultivada se expande para 97 milhões de hectares, a proteção financeira do campo encolhe drasticamente.
O orçamento, que deveria ser de R$ 4 bilhões, hoje não passa de R$ 1 bilhão, um buraco nas contas de cobertura do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR), da ordem de R$ 3 bilhões.
Um estudo inédito da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg), divulgado em primeira mão para a Forbes Agro, mostra que o Brasil pode encerrar o ano de 2025 com a cobertura de seguro rural no mesmo patamar de uma década atrás, caso seja mantido o ritmo das atuais contratações.
“A área segurada no Brasil ainda é muito baixa, o que deixa milhares de produtores expostos e podendo perder tudo em uma única safra”, diz o economista Dyogo Oliveira, presidente da CNseg.
Até julho, a área segurada foi de apenas 2,2 milhões de hectares, o que equivale a 2,3% da área plantada no País. O PSR foi criado pelo governo federal por meio do Decreto nº 5.121, de 2004, que regulamentou a Lei nº 10.823, de 2003. O programa teve início em 2005, como um projeto-piloto, e foi efetivado a partir do ano seguinte em 2006.
Nos Estados Unidos, por exemplo, o programa federal cobre cerca de 90% da área plantada das principais culturas, com o governo arcando com 60% do valor do prêmio, em média.
“O seguro rural é uma ferramenta eficiente para garantir a resiliência e a sustentabilidade dos produtores diante das perdas causadas por eventos climáticos extremos”, afirma Oliveira.
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Dyogo Oliveira, economista e presidente da Confederação Nacional das Seguradoras
Com a média mensal atual de 6,7 mil apólices pelo PSR, a projeção é terminar 2025 com apenas 4 a 5 milhões de hectares segurados, um nível de cobertura que o país tinha em 2015.
Naquele ano, o Brasil cultivou 78,1 milhões de hectares e segurou 2,6 milhões (3,3%). Em 2025, mesmo com a área ampliada em 24,2%, para 97 milhões de hectares, o total segurado até julho foi de apenas 2,2 milhões (2,3%).
O impacto da instabilidade do subsídio
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Campo de girassol devastado por condições climáticas adversas
O retrocesso é um sintoma da instabilidade orçamentária e da falta de previsibilidade nos subsídios públicos. O número de contratos via PSR deve ser 40% inferior ao de 2024 e 62% menor que o pico de 2021 (quando foram mais de 200 mil apólices).
A retração do subsídio tem forçado os produtores, que enfrentam margens apertadas e crédito mais caro, a fragmentar a cobertura, contratando apólices para áreas menores ou apenas para culturas de altíssimo risco, como o milho safrinha.
O executivo Glaucio Toyama presidente da Comissão de Seguro Rural da Federação Nacional de Seguros Gerais (FenSeg), ligada à CNseg, alerta que a ausência de subvenção exclui justamente quem mais precisa: os produtores mais vulneráveis, deixando-os descobertos. Enquanto isso, produtores mais capitalizados seguem contratando apólices fora do apoio governamental.
“Sem essa proteção, entramos em um ciclo vicioso: o produtor quebra, o poder público precisa criar programas emergenciais de renegociação de dívidas, o que gera uma “sangria” nos cofres públicos”, diz Toyama. “A longo prazo, vemos um desestímulo à sucessão familiar no campo, com as novas gerações abandonando a atividade por considerá-la insustentável.”
O impasse na política de subvenção, somado à retração na liberação de crédito rural, cria um ciclo de fragilidade. A queda na cobertura se torna um risco financeiro individual, e uma ameaça à segurança alimentar nacional e à resiliência produtiva.
Os R$ 4 bilhões que responderia com mais tranquilidade as demandas do produtor é uma estimativa utilizando os dados da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Isso se contrasta dramaticamente com o modelo de outras potências agrícolas.
“O modelo atual de financiamento do PSR está sob severa restrição orçamentária e isso não é mais sustentável,” diz Oliveira. “Além disso, grande parte dos recursos previstos sequer é executada, o que compromete a proteção dos pequenos e médios produtores, justamente os mais vulneráveis a perdas.”
Entre janeiro e agosto de 2025, o seguro rural registrou queda de 6,7% na arrecadação, totalizando R$ 8,7 bilhões, além de uma retração de 7,4% no pagamento de indenizações, que totalizaram R$ 3,1 bilhões. Estes números confirmam o enfraquecimento desta ferramenta e o impacto direto sobre a renda e a estabilidade financeira dos produtores.