Chegar a Longyearbyen, a cidade mais ao norte do mundo com população permanente, exige escala em Oslo e mais uma hora e quarenta minutos de voo sobre o Oceano Ártico. A temperatura média no verão mal ultrapassa 6 graus Celsius. Para a presidente da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Silvia Massruhá, o trajeto do Brasil tropical ao arquipélago norueguês de Svalbard valeu cada hora. Nesta quarta-feira (10), ela entregou pessoalmente a sexta remessa de sementes brasileiras ao Svalbard Global Seed Vault, o banco mundial de sementes mais importante do planeta, cravado a 120 metros de profundidade dentro de uma montanha de arenito, sob o solo permanentemente congelado do Ártico.
Com 24 novos acessos, de caju (2), fava (7), amendoim (4), mamona (3) e gergelim (8), agora o acervo brasileiro totaliza de 8.149 amostras que a Embrapa acumula no silo norueguês desde 2012. Arroz, feijão, milho, trigo e variedades tradicionais de agricultores familiares do Rio Grande do Sul já estão lá. Cada caixa lacrada pela empresa brasileira carrega, em média, 500 sementes em embalagem aluminizada, hermética, mantida a 18 graus negativos. A Embrapa é a única instituição com autorização para retirar seus próprios materiais.
“Essa iniciativa representa uma salvaguarda da biodiversidade agrícola mundial e reforça o compromisso da ciência brasileira com o futuro”, afirmou Massruhá nas redes sociais durante a missão. Na postagem, ela destacou a honra de se reunir com a Vice-Governadora de Svalbard para discutir cooperação internacional, sustentabilidade e o papel da ciência diante das mudanças climáticas. “O futuro da agricultura e a segurança das próximas gerações se constroem com preservação, pesquisa e união global”, escreveu.
A montanha que não pega fogo, não inunda e não vai à guerra
A ideia de construir um cofre global de sementes não surgiu do nada. Já em 1984 a Noruega mantinha um armazém de sementes nórdicas na Mina 3 de Svalbard. O salto para uma estrutura internacional veio de um grupo de pesquisadores, entre eles o americano Cary Fowler, que conduziu um estudo de viabilidade nos anos 2000 e concluiu que Spitsbergen, a maior ilha do arquipélago, reunia condições únicas: estabilidade geológica, afastamento de conflitos, solo permanentemente congelado como sistema de resfriamento passivo e altitude suficiente para resistir ao avanço do mar mesmo nos cenários mais graves de aquecimento global.
O cofre abriu em fevereiro de 2008, administrado em parceria pelo Ministério da Agricultura e Alimentação da Noruega, pelo Centro Nórdico de Recursos Genéticos (NordGen) e pelo Crop Trust, organização internacional dedicada à conservação da diversidade de cultivos. Na inauguração, 278 mil amostras de arroz e trigo encheram as primeiras câmaras. Em setembro de 2009, os depósitos já chegavam a 423.899 tipos, vindos de 219 países. A revista Time elegeu o Svalbard Global Seed Vault a sexta melhor invenção de 2008.
O crescimento não parou. O 69º depósito, realizado em fevereiro de 2026, elevou o total a 1.386.102 amostras de mais de cinco mil espécies, oriundas de 223 países e territórios. Nessa última rodada, Guatemala e Níger depositaram sementes pela primeira vez, e o banco recebeu seu primeiro lote de azeitonas, resultado de projeto europeu de conservação liderado pela Universidade de Córdoba.
A estrutura física é grandiosa, composta por três câmaras escavadas a 120 metros dentro do Platåberget, a montanha plateau que domina a paisagem de Longyearbyen, cada uma com capacidade para 1,5 milhão de amostras. Com capacidade total para 2,5 bilhões de sementes, o cofre está hoje pouco mais de um quarto cheio. Projetado para resistir a terremotos de magnitude 10 na escala Richter, o Svalbard Global Seed Vault nunca perdeu um único acesso.
Mas por que guardar sementes no fim do mundo? Porque bancos de germoplasma queimam, alagam, perdem energia, fecham por corte de verbas ou desaparecem em guerras. O Svalbard Global Seed Vault existe para o dia em que isso acontecer. E acontece. Em 2015, por exemplo, o International Center for Agricultural Research in the Dry Areas (ICARDA), banco de germoplasma do Oriente Médio, precisou sacar suas próprias sementes depositadas em Svalbard depois que a guerra civil síria destruiu instalações em Aleppo. Foi o primeiro saque da história do cofre, e funcionou. E as mudanças climáticas ampliam a urgência.
Variedades adaptadas a condições específicas de solo, altitude, temperatura e precipitação são o capital genético com o qual melhoristas trabalharão para criar culturas resistentes ao calor, à seca e a novas pragas. Perder essa diversidade equivale a destruir uma biblioteca antes de ler os livros. O Crop Trust estima que existam mais de 1.700 bancos de germoplasma no mundo. Nem todos têm a estabilidade financeira, institucional ou geográfica para garantir a sobrevivência de suas coleções por décadas.
Brasil, parceiro de primeira hora
O Brasil chegou ao cofre em 2012, com arroz e milho. As remessas seguintes acrescentaram feijão, trigo e, em fevereiro de 2025, 2.701 amostras de arroz e feijão de coleções da Embrapa, junto com 59 variedades de sementes tradicionais da Associação dos Guardiões de Ibarama, no Rio Grande do Sul.
Foi a primeira vez que uma associação de agricultores familiares brasileiros realizou a multiplicação de sementes com o objetivo exclusivo de depositar cópias de segurança em Svalbard. O custeio veio do projeto BOLD (Biodiversity for Opportunities, Livelihoods and Development), da Crop Trust.
Com os acessos acumulados, o Brasil ocupa posição de destaque entre os países depositantes. Os materiais genéticos entregues nesta quarta-feira ampliam a presença de culturas de importância histórica e econômica para o Nordeste e o Cerrado. O gergelim, com oito novos acessos, é uma das culturas mais antigas cultivadas pelo ser humano, introduzida no Brasil por africanos escravizados no século 16 e presente até hoje em pequenas propriedades do semiárido. A mamona, com três acessos, fornece o óleo base do biodiesel. A fava, com sete, é proteína fundamental em boa parte do Nordeste.
A entrega das sementes, que começou na segunda-feira (8) e termina nesta quinta-feira (11), fez parte de uma missão à Noruega. A Embrapa assinou uma Carta de Intenções com o Instituto Norueguês de Pesquisa em Bioeconomia (NIBio), abrindo frentes de colaboração em produção sustentável de alimentos e conservação de recursos naturais. A comitiva visitou ainda o Instituto Norueguês de Pesquisa em Alimentos (Nofima) e a Universidade Norueguesa de Ciências da Vida, em Ås. O coordenador do Labex Europa, Elcio Guimarães, ficará responsável pela continuidade das parcerias acordadas.